Se você já evitou morder uma maçã ou precisou esperar a sopa esfriar completamente para não sentir aquela "fisgada" aguda que sobe até a cabeça, você conhece bem a hipersensibilidade dentinária. Este problema atinge cerca de 30% da população adulta e é frequentemente ignorado pelos pacientes, que acreditam ser um "incômodo passageiro".
Ignorar a sensibilidade é um erro. A dor é o sistema de alarme do corpo humano. Quando um dente reage a mudanças de temperatura (frio ou calor) ou a estímulos químicos (doces e ácidos), ele está comunicando uma falha grave na sua estrutura de proteção.
Entender a mecânica por trás desse choque é o primeiro passo para buscar o tratamento correto e parar de sofrer em silêncio.
Para compreender a sensibilidade, precisamos olhar para dentro do dente. A coroa (parte visível) é revestida pelo esmalte dentário, a substância mais dura do corpo humano. O esmalte não tem nervos; ele é a armadura.
Logo abaixo dessa armadura, existe a dentina. A dentina é um tecido vivo e poroso, repleto de milhares de túbulos microscópicos (micro-canais). Esses canais são preenchidos por um fluido e levam diretamente ao coração do dente: a polpa dentária, onde ficam os nervos e vasos sanguíneos.
O problema ocorre quando o esmalte se desgasta ou a gengiva retrai (sobe ou desce, afastando-se do dente), deixando a dentina totalmente exposta. Sem a armadura de esmalte, o ar frio, o líquido quente ou o açúcar entram em contato direto com esses micro-canais. O fluido dentro deles se movimenta bruscamente, estimulando o nervo e disparando o "choque" intenso e imediato.
Muitos pacientes relatam que escovam os dentes três vezes ao dia, usam fio dental e ainda assim sofrem com dores. A questão é que a sensibilidade, na maioria das vezes, não é causada por cáries, mas por desgastes químicos e mecânicos que cometemos sem perceber.
Acreditar que aplicar força na escova deixará os dentes mais limpos é o maior erro da rotina de higiene. O uso de escovas de cerdas duras, aliado a uma escovação vigorosa (movimentos horizontais fortes), funciona como uma lixa. Com o passar do tempo, esse atrito agride a margem da gengiva, fazendo com que ela se afaste e exponha a raiz do dente. A raiz não possui esmalte; ela é coberta apenas por uma fina camada chamada cemento, que se desgasta rapidamente, expondo a dentina.
A erosão é o "derretimento" químico do dente, sem a presença de bactérias. O consumo diário de refrigerantes, energéticos, sucos cítricos, vinhos e até mesmo o famoso hábito de beber "água com limão em jejum" altera o pH da boca. Esse banho de acidez desmineraliza a superfície do dente. Ao longo dos meses, os dentes ficam mais finos, amarelados e extremamente sensíveis ao toque e à temperatura. Pacientes que sofrem de refluxo gastroesofágico ou transtornos alimentares (bulimia) também apresentam altos índices de erosão devido ao ácido do estômago.
O estresse urbano se manifesta de forma agressiva durante a noite. O bruxismo (ranger os dentes) e o apertamento (apertar os dentes estaticamente) aplicam uma carga de força até 10 vezes maior que a mastigação normal. Essa pressão constante gera micro-trincas e quebra o esmalte na região próxima à gengiva, criando lesões em forma de "cunha" (abfrações). O dente literalmente começa a lascar na base, expondo os canais nervosos.
Procedimentos estéticos feitos sem supervisão profissional, especialmente o uso de "fitas clareadoras" da internet ou géis de alta concentração aplicados em casa de forma indiscriminada, abrem demasiadamente os poros do esmalte. O oxigênio presente no agente clareador atinge o nervo, gerando inflamação reversível, mas altamente dolorosa (as famosas "pontadas" espontâneas).
A primeira reação de quem sofre com dores ao beber água gelada é correr até a farmácia e comprar uma pasta de dente para dentes sensíveis. Mas isso resolve?
Em parte. Os cremes dentais dessensibilizantes funcionam de duas maneiras: alguns possuem nitrato de potássio, que acalma o nervo temporariamente; outros possuem componentes que "tampam" superficialmente os micro-canais da dentina exposta.
Porém, eles tratam o sintoma, mas não curam a causa estrutural. Se você tem uma raiz exposta por retração gengival ou uma cavidade formada por bruxismo, a pasta de dente apenas mascara a dor por algumas horas. O problema continuará avançando até que uma fratura maior ocorra ou um tratamento de canal seja necessário.
A resolução da sensibilidade exige um diagnóstico preciso para descartar infiltrações em restaurações antigas ou fraturas invisíveis. Confirmada a hipersensibilidade dentinária pura, as abordagens modernas focam em devolver a proteção perdida: